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Quando eu aprendi o que era internet, estava no terceiro ano da faculdade de arquitetura. Isso em 1996, época em que se amarrava cachorro com lingüiça. Fazia aula de projeto em um ambiente mais ou menos experimentalista, onde os temas a serem desenvolvidos eram bastante conceituais. Claro que “conceitual” dependia de quanta cola de sapateiro nós havíamos involuntariamente cheirado enquanto fazíamos maquetes. Meu projeto em equipe mais insano era uma plataforma metálica gigante, em forma de fractal, fincada no istmo da Ilha do Mel. Olhando hoje, foi provavelmente a coisa mais dantesca que alguém vislumbrou para o litoral paranaense. Naquela época, parecia o último grito da nova geração de arquitetos que bombaria tão logo recebesse o canudo. Enfim, essa era a atmosfera ideal para que um dos professores viesse nos mostrar a grande novidade do milênio: a internet da qual ouvíamos tanto falar estava ali, disponível no laboratório de informática. Minto: era no laboratório de geoprocessamento… o que dava um verniz ainda mais high-tech à coisa toda.

Eu já me considerava parte da nata inovadora da minha geração, sabendo usar um 386 e confeccionar textos e capas de trabalho no Corel Draw. Desenhava tudo à mão e colava um memorial descritivo impresso numa impressora matricial, em papel vergê. Imagina, meu pai ainda era da época das máquinas de escrever… geração caneta BIC. Depois de conhecer a internet e virar uma viciada completa, estava convencida de que a vida reservava grandes planos pra mim e para a geração dos que sabiam o que era o Netscape.

Onze anos depois de terminada a faculdade, eu olho para aquela época com um sorriso meio sarcástico. Sim, eu ainda tenho traquejo grande com os novos gritos da comunicação digital. Mesmo porque é com isso que ganho a vida. Nada de extraordinário. Mas o que aprendi, desde então, é que a vida não reserva nada do que não estejamos dispostos a construir… e raramente isso se consolida antes dos 35, 40 anos de idade. Aprendi também que a experiência e capacidade de resolução de problemas só se conquista com alguma bagagem nas costas. Mas vá dizer a um recém-formado que ele não será CEO antes dos 30, vai.

Li hoje um texto do Luli Radfahrer que fala justamente dessa pressa, característica de quem tem seus 20 e algo anos, de ter sua vida resolvida em curto tempo. Como nossa expectativa de vida média aumentou muito, o span da nossa carreira é muito maior. Quem recém-chegou aos 30 está começando a vislumbrar o primeiro terço de sua carreira… o que dirá alguém de 25.
 

(…)Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?

No final das contas, hoje em dia meu pai usa home-banking e planeja viagens via internet. Minha mãe fala comigo no Gtalk, sabe mais sobre formatação no Word do que suas três filhas juntas e – pasme – critica com desdém quem envia Powerpoint com mensagens açucaradas. Nenhum dos dois usa Twitter, nunca “digou” algo mas… será que é realmente necessário? Ambos sabem lidar com situações de conflito em ambientes de trabalho, negociam com grande habilidade, são polidos e justos com seus subordinados e  têm um senso de “getting things done” que nenhuma das filhas tem.

Do alto dos meus parcos 33, ainda tenho uma estrada grande pra trilhar. E tou achando ótimo :-)

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