Do rabo uma navalha, da navalha ao pão

Nov 28, 2009 by admin    2 Comments    Posted under: Generalidades

Pegue três crianças impacientes, coloque dentro de um carro em movimento durante 12 horas e tente manter o sistema em equilíbrio. A fórmula da minha mãe para viagens de férias à casa dos meus avós consistia em uma sacola de guloseimas e um suprimento infindável de histórias. Tudo bem que 90% das histórias se repetiam ano após ano, mas – até mesmo pela falta de opção – escutávamos atentamente o desenrolar de cada uma.

Uma delas ficou durante anos guardada na gaveta mais empoeirada desde pobre cérebro, vindo à tona sabe-se lá por que quando minha irmã veio a Porto Alegre. A história falava sobre um macaco que zombava de alguém, gritando “comeu a gordura do meu rabo”. Várias horas e uma ligação telefônica depois, minha mãe tentava se lembrar da história, que era a seguinte:

Era uma vez uma velhinha que possuía um macaco escravo. A velhinha o mandou à venda comprar banha em lata para cozinhar. O macaco gastou o dinheiro que a velhinha lhe deu (em bebida?) e, no caminho de volta, teve a brilhante idéia de cortar o próprio rabo e espremer a gordura do mesmo em uma lata para entregar à velhinha. O macaco assistiu à senhora comendo com prazer a comida feita com a dita gordura. Ao final da refeição, zombou da velhinha: “comeu a gordura do meu rabo, comeu a gordura do meu rabo”.

A história ganha um segundo arco, onde o macaco se entristece por não ter mais o rabo e pede à velhinha o rabo de volta. Ela, impotente para retornar o rabo, oferece uma navalha em troca. O macaco sai porta afora com a navalha, até encontrar uma pessoa tentando cortar um pedaço de pão muito duro. O macaco oferece a navalha à pessoa, que o corta. Contudo, a navalha se quebra no processo. O macaco se entristece e suplica: “quero minha navalha! Quero minha navalha!” A pessoa oferece o pedaço de pão ao macaco, que o aceita e segue caminho. Encontrando um homem que passava fome, o macaco se compadece e dá o pão a ele. O homem oferece a própria camisa em troca, a qual é trocada no encontro seguinte do macaco com outro humano, que passava frio e lhe dá um violão em troca. Ao final, o macaco sai estrada afora cantando: “Do rabo uma navalha, da navalha a um pão/ Do pão uma camisa, da camisa um violão”.

A história, relembrada aos trancos, simplesmente não fazia sentido. A junção do primeiro arco macaco-venda-gordura não tinha uma conexão muito boa com o segundo navalha-pão-camisa-violão. Não havia justificativa para a velhinha, passada por trás pelo macaco malandro no primeiro ato, ainda doar uma navalha ao mesmo. Aliás, o macaco chegar vivo ao segundo arco era algo incrível.

Garimpando fragmentos 

Fazendo valer o título do blog, fui ao pai-dos-burros da contemporaneidade procurar uma visão mais pura da história. Uma das coisas mais fascinantes da tradição oral é a facilidade com que ela é apropriada e reinventada por cada um de seus reprodutores. Será que a história que chegou a mim não seria um mash-up entre várias histórias envolvendo macacos?

A primeira lição aprendida foi a de que não se coloca “rabo” impunemente no Google, mesmo que dentro de uma combinação com outras palavras. Depois da trigésima página de pornografia, desisti e resolvi seguir a outra ponta da história. As palavras navalha, pão, camisa me deram mais sorte: achei menções no Brasil e em Portugal de um conto português em que um macaco empreende uma viagem trocando objetos, coroando o final com uma canção. Eu estava chegando perto.

Origens lusitanas

"O Macaco do Rabo Cortado", por Bela Silva, Metrô Alvalade, Lisboa
Azulejos por Bela Silva, Metrô Alvalade, Lisboa

Em Portugal, o primeiro arco do conto é diferente, e faz muito mais sentido. O macaco teria se envergonhado de seu rabo comprido, pedindo a um barbeiro que o cortasse fora. Uma vez de rabo curto, sai o macaco à rua e é ridicularizado. De volta ao barbeiro, pede que este cole o rabo de novo. Ante a negativa, o macaco lhe rouba uma navalha e sai por aí. O segundo arco é uma seqüência de trocas da navalha por outros objetos, tal qual a versão da minha mãe. Ainda nessa versão portuguesa, o macaco troca a navalha por sardinhas, depois farinha, uma menina (tempos politicamente incorretos, mas enfim…) e, finalmente, a viola, com a qual ele entoa uma canção contando sua trajetória:

“Do rabo fiz navalha, da navalha fiz sardinha, da sardinha fiz farinha, da farinha fiz menina, da menina fiz camisa, da camisa fiz viola, e eu vou para Angola”.

Algumas versões finalizam com “tum tum tum, que vou para Angola”, “tinglim, tinglim, e vou para Angola” ou, ainda, “frum frum, e vou para Angola”. 

Versões brasileiras

Fonte: www.jangadabrasil.com.br
Fonte: www.jangadabrasil.com.br

Outras versões, coletadas no Brasil, têm o primeiro arco totalmente modificado, onde o rabo cortado do macaco tem sua origem na teimosia do mesmo em não sair da frente de um carro de boi (é, o macaco não era fácil). O rabo é, obviamente, cortado, e o resto da história segue mais ou menos o segundo arco das versões anteriores. Tanto nessa versão quanto na portuguesa, a canção do macaco menciona Angola como o destino desejado do símio, ao contrário da versão da minha mãe, originária do interior de São Paulo.

 

Segundo Luis da Câmara Cascudo, o conto é um exemplo de cumulative tales, os contos acumulativos ou encadeados, comuns à literatura oral européia, africana e asiática. No Brasil, esses contos seriam originários de Portugal, ganhando elementos locais mas mantendo a mesma estrutura.

 

Epílogo

Tal como no conto do macaco, o trajeto de uma versão a outra foi uma experiência bem interessante per se. Além da diversidade de versões e do pano pra manga que isso dá em pensarmos como foi a mutação dos elementos de contador para contador, essa procura trouxe situações em que o conto provou ser uma excelente metáfora dentro de um ambiente de storytelling. Encontrei esta matéria com a contadora de histórias Maria Betty Coelho Silva, em que ela descreve duas experiências riquíssimas com alunos, ambas envolvendo o conto como articulador de relacionamento com crianças.

2 Comments + Add Comment

  • mel… eu já tinha ouvido a história do macaco. envolvia uma noite estrelada, sei lá. mas pesquisar a história… cê tá tomando ácido?

  • Hahahahah :-)

    Então! Você também conhece a história original com o final da noite estrelada? E eu pensava que minha mãe tinha feito um mash-up com o da noite estrelada do papagaio.

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Mel Lesnovski é arquiteta não-praticante e sócia da Aldeia.biz.

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